sábado, 18 de dezembro de 2010

ENTREVISTA COM ANDRÉ TRIGUEIRO


"Nenhum desenvolvimento é possível se não for sustentável"

dez 17, 20100 Comentáriospor Rafaella Amata

Para falar sobre o conceito de sustentabilidade, convidamos um dos jornalistas ambientais mais conceituados do Brasil, André Trigueiro. Super respeitado, Trigueiro coleciona títulos, prêmios, homenagens, basta passar por seu site Mundo Sustentável para conferir.

Um dos pioneiros nos temas sustentáveis, Trigueiro é Editor-chefe do programa semanal "Cidades e Soluções"exibido desde de 2006 na Globo News. O perfil do programa é trazer iniciativas que já dão resultado e podem ser aplicadas no Brasil.

Trigueiro também é comentarista da Rádio CBN (860 Kwz), onde apresenta aos sábados e domingos o quadro "Mundo Sustentável. É professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro Mundo Sustentável – "Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação", Coordenador Editorial e um dos autores do livro "Meio Ambiente no século XXI".

Em entrevista exclusiva para o Greenvana Style, Trigueiro fala sobre sustentabilidade:

Greenvana Style – As pessoas têm usado as palavras sustentabilidade e sustentável para tudo. O que você pensa disso e o que considera a verdadeira sustentabilidade?

André Trigueiro – Em primeiro lugar, acho que é um processo natural decorrente do avanço da consciência, da maturidade da civilização, no sentido de perceber o que hoje cada um denomina por sustentabilidade é um predicado importante para qualificar projetos, sejam eles projetos governamentais, empresariais, do terceiro setor ou acadêmicos, em qualquer ordem de grandeza.

Esse é um bom problema. É melhor que todo mundo esteja falando de sustentabilidade, ainda que de forma, em boa parte dos casos, imprópria, do que esse assunto não ser considerado relevante. Eu entendo que é um papel principalmente dos profissionais de comunicação, dos jornalistas, porque a gente trabalha nessa área com o significado das palavras, das expressões, do que as pessoas querem dizer.

Também é um resultado das eventuais fraudes na área do marketing, da impropriedade de uma determinada empresa de qualificar seu projeto como sustentável – quando na verdade há descolamento entre o que ela diz fazer e o que ela de fato faz. Isso tudo faz parte de uma sociedade democrática com imprensa livre, ministério público atuante, organizações não governamentais igualmente ativas.

Existem empresas no Brasil e no exterior que usam indevidamente o termo sustentável para adjetivar o projeto. E elas correm um risco enorme quando não usam esse adjetivo com propriedade. Particularmente eu tenho tanto respeito pelo termo que eu diria o seguinte: eu não acredito realmente que a gente possa qualificar de sustentável a maioria absoluta dos projetos.

Eu acho que é o norte magnético de uma bússola que aponta em uma direção. Mas eu não conheço nenhuma empresa 100% sustentável, nenhuma universidade 100% sustentável, nenhum país, estado ou cidade sustentável.

Eu acho que estamos todos a procura do melhor desempenho, do menor consumo de matéria prima e energia, da forma mais inteligente de realizar qualquer tipo de processo nesse planeta que reduza drasticamente os impactos ambientais. Me parece que ser sustentável significa o esforço que todos nós precisamos realizar para gerarmos menos impacto.

GS – Qual é a importância de adotarmos novas atitudes de consumo mais conscientes?

AT – Sobrevivência. Estamos falando de um mundo onde os recursos naturais não renováveis estão sendo depredados, onde a população cresce a uma taxa de 200 mil novos habitantes por dia, onde as pessoas que se declaram consumistas não percebem o equívoco que é acumular bens, achando que a felicidade se resume em possuir. Cada bem que você adquire, é um pedacinho da natureza que você leva para sua casa.

E o planeta é um só, os recursos são finitos. Quem coleciona bens, coleciona meio ambiente dentro de casa. E isso é grave porque quando se acumula há a geração de escassez. É um mundo onde todos nós estamos instigados a achar que, para sermos bem sucedidos, precisamos ter o estilo de vida americano. A sociedade de consumo não é sustentável. Ela não gera prosperidade para todos. Ela gera opulência para poucos, pobreza e exclusão para muitos e o esgotamento da Terra, o esgotamento dos recursos naturais não renováveis.

GS – É possível haver uma harmonia entre economia e ecologia?

AT – Não é possível haver harmonia de uma forma geral e ampla sem o empreendimento da economia com a ecologia. Nenhum desenvolvimento é possível se não for sustentável. Não é possível imaginar um modelo de desenvolvimento que não tenha na sustentabilidade o seu eixo principal. Isso é tão verdade que no Brasil o Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente vivem se bicando.

Os ambientalistas acham que a agricultura avança de forma irresponsável e a agricultura acha que os ambientalistas atrapalham o desenvolvimento e progresso do país.

Os britânicos resolveram isso criando apenas um Ministério para colher as duas pastas. Lá, existe o equivalente ao Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente daqui, a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente. É uma pasta só. Porque não é possível imaginar uma agricultura forte sem o meio ambiente saudável. E o meio ambiente saudável propicia as melhores condições de produtividade no campo.

Então, é falsa a tese de que o desenvolvimento atrapalha o meio ambiente e que o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento. Essa discussão está superada. Não tem como gerar economia, ou seja, geração de emprego e renda e produção de riqueza, sem se preocupar com sustentabilidade.

GS – Você acha que as pessoas estão ficando mais conscientes sobre os problemas ambientais?

AT - Não tenho dúvidas. As campanhas eleitorais começaram a ter os candidatos mais preocupados em falar do posicionamento deles sobre esse assunto. A última campanha foi emblemática nesse sentido. A Marina Silva pela primeira vez se ofereceu a ser candidata a presidente e recebeu 20 milhões de votos.

No setor privado, a maioria das grandes empresas do mundo não se descuida e vai além do que a legislação ambiental recomenda, porque é uma questão de mercado, que é muito exigente. As pessoas passam a querer certificação, o selo verde.

Empresas com um bom posicionamento na área ambiental têm maior lucro. Também existem as tradições religiosas com seus porta vozes procurando explicar, segundo suas crenças, qual a resposta que cada religião dá para a crise ambiental. Então eu não tenho nenhuma dúvida de que este é um assunto que ganha prestígio e importância ao longo dos anos.

GS – Como você vê a importância da mídia nesse processo?

AT – Eu acho que a mídia tem que fazer o que sempre fez, mas com maior sensibilidade na área ambiental. O que a mídia precisa fazer é o papel dela, denunciar o que está errado e ser vitrine de boas práticas e de boas experiências.

A minha percepção é de que, também na mídia, temos uma qualificação dos profissionais. Existe mais gente preocupada em cobrir melhor esse assunto, tem mais espaço no jornal, no rádio, na TV, na Internet para falar disso.

Esse espaço precisa ser ocupado porque há demanda. As pessoas querem ouvir mais, querem saber mais sobre, porque não é um assunto qualquer. A gente está falando de qualidade de vida, de sobrevivência do planeta, de inteligência no uso dos recursos.

É um assunto que diz respeito a perspectiva de sermos felizes num planeta que é a nossa casa. Não tem plano B, não tem um foguetão para levar todo mundo embora se aqui ficar esquisito. A gente tem que saber viver aqui respeitando as leis que regem a vida e o universo.

E a gente tem que saber usar conhecimento e tecnologia para, com inteligência, não transformar um lugar maravilhoso que é esse planeta, em um lixão, um lugar contaminado, com ar poluído, com terra desértica e infértil e com água contaminada.

Eu digo no meu site, Mundo Sustentável, que o meu entendimento de um jornalismo focado no meio ambiente é aquele que tem a capacidade de denunciar o esgotamento desse modelo.

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