quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Angra, tragédia anunciada

 

Por João Bosco Rabello

O governador Sérgio Cabral tem razão quando atribui a tragédia de Ano Novo em Angra dos Reis ao desgoverno produzido pelo populismo e, mesmo, ao ceticismo de proprietários de terrenos quanto aos riscos de empreendimentos que afetem o meio-ambiente.

Cabral se apossa de um discurso de oposição como se não fosse ele o governador (onde mesmo já vimos isso?)

O governador Sérgio Cabral em visita a Angra dos Reis após a tragédia

Nessa crítica de Cabral, feita em tom de desabafo e no calor da batalha, dois aspectos se destacam:  a inoperância fiscalizadora do Estado (ou tolerância com infratores); e a velha transferência da responsabilidade para quem veio antes – a tal da herança maldita.

Fiquemos com o primeiro caso, que guarda mais sentido objetivo.  Em seu último ano do atual mandato, o governador talvez não  tenha se dado conta de que incluiu-se  entre os gestores , no mínimo, distantes da questão ambiental em Angra.

Cabral se  apossa de um discurso de oposição como se não fosse ele o governador (onde mesmo já vimos isso?)

Seria leviandade , que deixo aos seus opositores, responsabilizá-lo pela tragédia. Ela é  obra de muitos anos, construída dia-a-dia pela indiferença dos governos com a questão ambiental e pela conivência com a especulação imobiliária.

Vem de longe (diria Leonel Brizola) essa cumplicidade do setor imobiliário e as administrações cariocas pelo lucro a qualquer custo. Vale lembrar  a administração do prefeito Marcos Tamoio, que iniciou a decadência da cidade, quando o Cabral conhecido era Sérgio, o pai (não é nenhuma comparação, apenas uma referência temporal).

É indiscutível que as atuais  gestões estadual e municipal do Rio se distinguem de outras pela sintonia entre prefeito e governador, especialmente pelo empenho de ambos em resistir à tentação do populismo.

Mas Cabral deve explicações e providências concretas. Angra era tragédia anunciada . Seu opositor, César Maia, o acusa de conviver com as irregularidades ao flexibilizar a ação imobiliária na APA Tamoios, dentro da qual se insere toda a Ilha Grande.

O instrumento, diz Maia, foi o decreto 41.921, assinado pelo governador em junho de 2009. Embora não tenha produzido seus efeitos ainda, o que o exclui como fator de contribuição à tragédia, o decreto é um claro sinal de insensibilidade com o tema.

Essa é a explicação que o governador deve. Quanto às providências, só resta acompanhá-las na esperança de que extrapolem os primeiros socorros.

Afinal, Cabral é sobrenome que se confunde com o melhor do Rio de Janeiro, de pai para filho, em muitas décadas.

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