segunda-feira, 15 de junho de 2009

CARNE IRREGULAR VINDA DO PARÁ

MPF vincula 69 empresas ao ‘desmatamento’ no Pará

- Grandes grupos compram insumos vindos de terras ilegais
- Receberam uma recomendação para suspender transações
- Entre notificados está firma da família do vice José Alencar
- Lista inclui redes de supermercados, a Sadia e a Perdigão
- Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart devem evitar compras

Direto do “Blog do Josias – nos bastidores do

O Datafolha informou, há uma semana, que a maioria dos brasileirosresponsabiliza madeireiros (72%) e fazendeiros (68%) pelo desmatamentoda Amazônia.
Uma ação movida há 12 dias pelo Ministério Público Federal no Parámostra que, sem saber, os próprios consumidores contribuem para adevastação. A carne que você guarda na geladeira pode ter sidoextraída da carcaça de um boi abatido numa fazenda ilegal do Pará. Ocalçado que lhe forra os pés pode ter sido fabricado com o couro domesmo animal. Suas roupas podem conter matéria-prima originária deterras à margem da lei.
Dez procuradores da República, à frente Daniel César Azeredo Avelino,protocolaram na Justiça Federal do Pará um lote 21 processosjudiciais. Em associação com o Ibama, a Procuradoria reivindica acondenação de fazendeiros que, em afronta à lei, derrubaram no Paráalgo como 157 mil hectares de mata. Foi abaixo uma área de selvaequivalente ao território da cidade de São Paulo. Na grossa maioriados casos as árvores deram lugar ao pasto ilegal. Na ação, oMinistério Público pede que os desmatadores sejam condenados a pagarindenizações pelo malfeito. Coisa de R$ 2,1 bilhões.Em anexo, umquadro com os nomes dos processados e os valores da indenizaçãorequerida de cada um. Nove das fazendas encrencadas são daAgropecuária Santa Bárbara. Traz no rol de sócios diretores doOpportunity de Daniel Dantas. Entre eles Verônica Dantas, irmã doinvestigado-geral da República.
A Procuradoria acionou judicialmente também as empresas que realizaramnegócios com os responsáveis pela derrubada ilegal de pedaços dafloresta amazônica. Foi às barras dos tribunais, por exemplo, ofrigorífico Bertin, um dos maiores do país. Comprou carne de fazendasinfratoras. Uma delas encravada em reserva indígena.
Numa iniciativa inédita, a Procuradoria e o Ibama rastrearam toda acadeia de negócios que sustenta o desmatamento ilegal das florestas doPará. Verificou-se que, no terceiro elo da corrente da devastação,estão enganchados grandes grupos econômicos. São 69 empresas ao todo.Adquiriram subprodutos da atividade ilegal. Há na lista indústrias dossetores de limpeza, calçados, laticínios, têxtil e supermercados.Descobriu-se, por exemplo, que Pão de Açúcar, Carrefour, Wal-Mart eBompreço levam às suas gôndolas carnes extraídas da ilegalidade. Alista, disponível em anexo, inclui várias logomarcas vistosas. Até aCoteminas, empresa da família do vice-presidente José Alencar. Eisalgumas outras: Vicunha, Sadia, Perdigão, Vulcabrás, Minerva e Friboi.
A todas essas empresas, o Ministério Público endereçou na semanapassada uma “recomendação”. O texto anota os nomes das fazendas efrigoríficos processados judicialmente. E notifica: “Todos os produtose subprodutos, de origem bovina, adquiridos das empresas supracitadascaracterizam-se como oriundos de ilícitos ambientais”.
Depois, avisa: “A manutenção das relações comerciais com essasempresas [...] caracterizará a responsabilidade solidária e objetiva[...] pelos ilícitos ambientais”.
Em seguida, fixa “prazo de dez dias úteis”, a contar do recebimento,para que as empresas acatem a “recomendação”. Sob pena de sofreremprocessos.
Pelo menos três grupos –Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart— jádecidiram suspender a aquisição de produtos vindos de fazendas ilegaisdo Pará.
O gabinete da governadora Ana Júlia (PT) está em polvorosa. Vaisugerir ao Minitério Público a suspensão, por 60 dias, da recomendaçãofeita às empresas. Acha que, nesse período, seria possível negociar umtermo de ajuste de conduta que empurre os fornecedores paraenses paradentro da legalidade. Alega-se que, mantida a recomendação, a pecuárialocal, que responde por algo 14% do PIB estadual e 35% doabastecimento de carne do país, entrará em “colapso”. A proposta dogoverno estadual é endossada por prefeitos paraenses e pela Uniec(União da Indústria das Carnes do Estado).
Os procuradores signatários da ação judicial e da recomendação àsgrandes empresas situadas na cadeia da ilegalidade não esboçam, porora, a intenção de recuar.

Escrito por Josias de Souza às 05h03

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